Este
artigo tem como foco o sintoma que emerge
no grupo familiar, como produção
coletiva, apostando no diálogo
entre a obra freudiana e as idéias
de Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Entendemos a produção
freudiana como portadora de uma heterogeneidade
inquestionável, que escapa à
égide da verdade e situa-se como
um discurso tensionado e aberto de possibilidades.
A obra freudiana tem como característica
singular o fato de não se sujeitar
a apenas um esquema, mas permitir a
coexistência de modelos de psiquismo
distintos, que convivem lado a lado,
não havendo exclusão ou
eliminação de um pelo
outro. Essa coexistência denuncia
uma atitude de não-fechamento
e não-simplificação,
promovendo diferenças, ao mesmo
tempo em que possibilita o agenciamento
de conceitos.
Com certeza, a força dos conceitos
localiza-se fora deles, em sua potência
de criar, em sua capacidade de associar
idéias, incitar pensamentos,
leituras, de entrecruzar linhas e pontos
temporariamente arranjados, para mais
adiante serem desconectados ou reconectados
de outra forma. Como nos lembra o filósofo,
"os conceitos são exatamente
como sons, cores ou imagens, são
intensidades, que lhes convêm
ou não, que passam ou não
passam" (Deleuze e Parnet, 1998,
p. 12). Nesse sentido, os conceitos
fazem vibrar, compondo realidades, possuindo
um compromisso com o campo problemático
que lhes dá sentido, gerando
uma consistência que unifica traços
intensivos, promovendo formas de expressão
e estados de ressonância. Dessa
maneira, acreditamos que agenciar a
obra freudiana com a obra deleuziana
e guattariana, no campo da terapia de
família, é uma possibilidade.
Para quem trabalha com famílias
é inevitável se deparar
com a produção da teoria
sistêmica acerca do grupo. Esse
corpo teórico surgiu ligado à
Biologia, à Teoria Geral de Sistemas
e à Cibernética, e tinha
como proposta a procura de um corpo
teórico comum às várias
disciplinas, que operasse mudanças
no pensamento científico da época.
Para tal, os sistêmicos defendem
a idéia de sistema, noção
que contém princípios
organizadores que se aplicam às
máquinas, aos seres vivos e aos
fenômenos sociais e psicológicos.
O sistema corresponde a uma complexidade
definida pela existência de fortes
ações recíprocas
não lineares, funcionando como
um circuito de interação
global, guiado por retroalimentação.
Dentro desse raciocínio, como
destaca Esteves de Vasconcelos (1995),
a família é entendida
como um sistema que regula a si mesmo,
que se controla de acordo com regras
externas e internas criadas em um período
de tempo. Estabiliza-se e equilibra-se
por meio dessas regras. O sistema, regido
pela circularidade, oferece resistência
à mudança, mantendo sempre
que possível sua homeostase,
uma vez que o modelo utilizado é
o dos sistemas próximos ao equilíbrio.
Esse sistema familiar mantém
relações com o meio, como
receptor de mensagens externas, em que
as intervenções do terapeuta
serão incluídas, mas suas
operações são eminentemente
cerradas, ou seja, o trânsito
da informação se dá
prioritariamente entre seus membros,
sendo que é esse fechamento que
determinará o padrão de
interação da família.
O sintoma, dentro dessa perspectiva,
é sempre uma disfunção
que tem origem em alguma perturbação
no sistema que ameaça a homeostase
familiar. Tem sempre uma função
estabilizadora de retorno ao equilíbrio
da família.
Tendo como cliente a relação
do grupo, esse corpo teórico
tem como mérito a ênfase
no funcionamento da família como
um todo e o resgate da ação
como comunicação e determinante
de maneiras de relacionar-se, libertando-se
do domínio hegemônico da
representação. Possui
várias escolas, cada uma com
sua particularidade, mas todas perseguindo
técnicas que exaltam a mudança
da interação familiar.
Mudança aqui tem o significado
de reorganização interativa
via alteração do padrão
de comunicação, para que
não seja mais necessária
a produção do sintoma
para a sobrevivência do grupo.
Essa leitura sistêmica fundamenta-se
nos sistemas em equilíbrio. No
entanto, com o desenvolvimento dos novos
paradigmas, os sistemas em não-equilíbrio
entraram em cena e causaram impacto
no campo da Terapia de Família.
Os novos paradigmas dizem respeito a
uma série de mudanças
no pensamento científico contemporâneo,
ocorridas em diversos campos, todas
orientadas para a complexidade e embasadas
na premência de se trabalhar com
o acaso, com o indeterminismo, com a
incerteza.
Esse movimento destaca-se pela ênfase
na recursividade, pelo afastamento da
pretensão de objetividade, pelo
reconhecimento do acaso e da auto-organização,
centrando-se nos sistemas em não
equilíbrio, também auto-organizadores,
que passam a serem estudados pela física,
pela química, pela cibernética
e pela biologia. Esses sistemas são
sobretudo complexos, e possuem estrutura
autopoiética, ou seja, produzem
a si mesmos e a outros sistemas, sem
se submeterem a interações
instrutivas, mas sim a processos recursivos
pautados nas relações
que estabelecem. Essa autocriação
permanente é gerida pelo acaso,
sendo impossível para o pesquisador
precisar qual elemento será utilizado
ou não, qual flutuação
será amplificada. Esses novos
estudos alteram inclusive a visão
do pesquisador, que deixa de ser mero
observador, para também interferir
em seus experimentos. Nesse sentido,
o ato do observador, não mais
imparcial, determina o que é
evidenciado por meio da operação
de distinção que efetua.
A partir dessas idéias, muda
a leitura da família e o foco
do tratamento, que deixa de ser o sintoma.
O território familiar torna-se
resultado das experiências de
seus membros em relação.
Território em que são
construídas realidades, formas
e maneiras de se organizar e de se colocar
no mundo, que permitem a emergência
de sujeitos, crenças e sintomas
- o sistema terapêutico passa
a ser um sistema autopoiético.
O que significa afirmar que, no encontro
com a família, o terapeuta pode
construir e ser construído pela
família, situando-se como co-construtor
de realidades outras, nas quais o sintoma,
se possível, não esteja
presente.
Por outro lado, apesar das vastas e
complexas teorias acerca da compreensão
da função do grupo familiar
na fundação do sujeito
psíquico, a psicanálise
não possui grande arsenal de
intervenções para o terapeuta
que se propõe a trabalhar com
famílias. Embora possua alguma
produção teórica,
esse campo ainda é, em certo
sentido, desvalorizado pelos próprios
psicanalistas. As poucas escolas psicanalíticas
que atuam com o grupo familiar ainda
estão bastante centradas no Édipo,
na determinação do inconsciente
e no jogo identificatório que
decorre desse percurso edípico.
No campo da terapia de família,
têm sido estudados no Brasil os
chamados psicodinâmicos e as escolas
inglesa e francesa de Psicanálise
de família.
Os psicodinâmicos, ou terapeutas
familiares intergeracionais, são
psicanalistas que se distanciaram da
psicanálise tradicional em sua
prática centrada no sujeito,
associando a teoria psicanalítica
com a teoria sistêmica, na década
de 60. Baseados em Sigmund Freud e no
conceito de identificações
parentais, e focando suas técnicas
na eliminação do sintoma,
esses autores criaram uma série
de leituras e procedimentos clínicos
que, apesar de mesclarem modelos teoricamente
diferentes, incrementaram a terapia
familiar. Dentre eles podemos citar:
Murray Bowen, Ivan Borzomeny-Nagy e
Maurizio Andolfi (Elkaim, 1998).
Embora focalize seus estudos na conjugalidade,
realçando a condição
de transmutação da subjetividade
presente nesse vínculo, Magalhães
(2003) apresenta a seguinte classificação
da psicanálise familiar: os teóricos
das relações de objeto,
os teóricos grupalistas e os
teóricos das configurações
vinculares. Os teóricos das relações
de objeto - dentre eles, Donald W. Winnicott,
Luiz Meyer e Otto F. Kernberg - destacam
o interjogo das identificações
projetivas na constituição
da psicodinâmica familiar. Os
teóricos grupalistas, influenciados
pela psicanálise de grupo, enfocam
o inconsciente compartilhado pela família,
aparelho psíquico grupal que
se constitui na junção
dos espaços transicionais individuais.
Essas idéias são defendidas
por A. Ruffiot e Alberto Eiguer. Por
sua vez, os teóricos das configurações
vinculares, representados por Janine
Puget e Isidoro Berenstein, priorizam
os vínculos estabelecidos pela
subjetividade. Esses vínculos
se expressam tanto no intrasubjetivo,
sustentado pelo Complexo de Édipo,
quanto no transubjetivo, sustentado
pelo macrocontexto social e suas implicações,
e dessa forma promovem configurações
que se baseiam na trama identificatória
e se estendem para o social.
Grosso modo, podemos salientar que,
nessa perspectiva, o sintoma familiar
corresponde a uma regressão,
a um aflorar do primitivo, vivência
amparada em conteúdos narcísicos
não elaborados, oriunda da indiferenciação
psíquica, da fusão imaginária.
Nesse processo, a repetição
impera obstruindo qualquer possibilidade
de criação de uma estrutura
inédita, favorecendo a continuidade
de psicopatologias entre gerações.
Por meio da emergência do material
recalcado no grupo, a família
renuncia a sua função
de conter as tendências regressivas.
Essa perda é marcada pelo desencontro
com o objeto originário, que
impede a resignificação
de experiências passadas e causa
grande sofrimento vincular.
Não obstante as diferenças
entre suas escolas, a psicanálise
aborda a subjetividade como produto
do triângulo edípico. Nesse
sentido, a subjetividade é o
resultado da relação com
o outro. A criança, que nasce
amparada por uma família, é
a expressão dessa relação,
sendo sustentada psiquicamente pelas
amarras desejantes das funções
parentais. Dessa maneira, deparamo-nos
com a criatura humana como efeito de
uma estrutura familiar desejante inconsciente,
como ocupante de um lugar no desejo
de cada um dos pais, dependendo, para
se constituir psiquicamente, do contato
com outro sujeito.
Nesse contexto, a família concreta
pode ou não se tornar cenário
empírico no qual a tragédia
edípica instaura sua marcha,
encarnando fantasmas inconscientes em
que funções são
ativadas para a produção
do filho-sujeito. Para o indivíduo
que possui uma família e por
ela é criado, esta configura
naquele um mundo fantasmático
inconsciente. Mundo em que o jogo pulsional
é acolhido e ganha vida, em que
as pulsões se atrelam a representações
que são inscritas no psiquismo
em que se exprimem afetos, que por sua
vez operam intensamente por fluxos.
A família é o espaço
onde todo esse processo se realiza,
em que a história psíquica
de cada um de nós começa
a ser escrita. A subjetividade torna-se
aqui produto da pulsão. Pulsão-energia.
Energia que pulsa, colocando em funcionamento
o humano, fundando o psíquico.
Força que, à diferença
do instinto, não é invariante
e não está localizada
no âmbito biológico. A
psicanálise freudiana declara
que a pulsão é excitação
interna que se expressa como manifestação
psíquica. Manifestação
ambígua que se inscreve no psiquismo
em duas dimensões, possuindo
tanto registro qualitativo quanto quantitativo:
movimento de representação
e de afeto, respectivamente. Inscrição
qualitativa que se articula no campo
das representações e dos
objetos, ligados à estrutura
inconsciente: circuito pulsional que
ordena a excitação e regula
as instâncias psíquicas.
Inscrição quantitativa
do afeto, da força como energia
bruta que visa sempre à descarga:
impetuosidade pura, irredutível
a qualquer significado, correspondendo
àquilo que excede, que sobra
- pulsão de morte.
Analisando o discurso freudiano a partir
desses dois registros da pulsão,
Birman (1996) ressalta que este conceito
foi enunciado pela primeira vez no texto
Três ensaios sobre a sexualidade,
em que se enfatiza o aspecto qualitativo
da pulsão em detrimento do aspecto
quantitativo (Freud, 1905). Imbuído
do propósito de fundar uma ciência
do determinismo psíquico baseada
no inconsciente, Sigmund Freud insistiu
não só no atrelamento
da pulsão às representações
inconscientes, mas também na
regulação desse aparelho
psíquico pelo princípio
do prazer. Princípio segundo
o qual a psique procura evitar o desprazer
advindo do aumento de excitação,
perseguindo sempre o prazer presente
na manutenção dessa homeostase.
Mais do que um sentimento humano, o
prazer - nesse sentido e em um primeiro
momento na obra freudiana - é
o produto da conservação
da estabilidade no aparelho psíquico3.
Com essa premissa, o registro quantitativo
da pulsão é relegado a
um segundo plano, vencido pela ânsia
do equilíbrio, o qual é
atingido pela ligação
do excesso, do quantitativo, a uma representação
reconciliadora. Nesse sentido, o afeto
aflora como uma desordem, uma perturbação
a ser reduzida instantaneamente para
que o psiquismo se aquiete. O intensivo
desloca-se para um segundo plano, cedendo
lugar a toda uma elaboração
acerca do Édipo e da castração.
A psicanálise, sobretudo em sua
leitura estruturalista, enfatiza a subjetividade
como produto da castração.
Nesse contexto, a família sustenta
funções estruturais para
a produção do filho-sujeito.
Sujeito edípico que se curva
à ordem do estabelecido, ao ter
acesso à linguagem. Esta, por
sua vez, permite sua entrada na cultura
humana. A estrutura familiar desejante,
que dá sustentação
à linguagem, mostra-se primordial
para a humanização. É
no mundo fantasmático da família
que o significante lingüístico
pode ou não ser sustentado, e
a palavra, simbolicamente adquirida.
A aquisição da palavra,
mediante a castração simbólica
efetivada pela função
paterna, introduz o sujeito na dimensão
da cultura, possibilitando o acesso
ao reino do simbólico, ser falante
do seu próprio desejo4 (Bleichmar,
1984). Presenciamos assim a ênfase
na representação inconsciente,
a qual estrutura o sujeito em torno
da determinação fálico-edípica,
destacando seu posicionamento frente
à castração.
Criticando essa hegemonia do qualitativo
articulado com o campo da representação
e ligado à estrutura inconsciente,
Schneider (1993) faz o caminho contrário,
e efetua um resgate do afeto nos primeiros
escritos da obra freudiana. Na década
de 1890, Freud enfatizava a dimensão
quantitativa da pulsão. No entanto,
em um esforço para fixar a pulsão
em algo que não a extinguisse,
essa força foi fixada na representação,
como foi dito anteriormente, sendo a
saída encontrada no âmbito
do modelo de aparelho psíquico
da primeira tópica. Apesar de
localizar-se, em um primeiro momento,
entre o desamparo das forças
afetivas e a recolocação
dessas forças na forma intelectual
e verbal, o fundador da psicanálise
recua frente ao quantitativo e rende-se
à lógica determinista
e racionalista, buscando conferir sentido,
e não intensidade, à energia
pulsional. Contrariando essa separação,
a autora aponta que, na verdade, há
uma indissociabilidade entre o afeto
e a representação. Verbalizar,
falar, outorgar sentido também
é encarnar, vivenciar, desbloquear
fluxos que não têm nome
e são intensos, evidenciando
um processo de conjunção
da palavra com o ato. E é mediante
essa associação que, em
algum momento, algo se produz no espaço
terapêutico.
Podemos pensar essa abordagem do duplo
aspecto da pulsão - representação
e afeto - por apenas um viés:
apresenta-se como resultado de uma lógica
disjuntiva. Essa lógica é
problematizada por Deleuze e Guattari
(s/d) como uma síntese excludente
que, por não suportar as singularidades,
efetua territorializações
por meio de hierarquizações
e classificações. Os autores
partem do pressuposto que a realidade
é pura produção,
composta por singularidades e sustentada
pelo desejo - aqui entendido como excedente
de energia que impulsiona a subjetividade
em múltiplas direções.
Tudo o que existe é assim produzido,
tanto para produzir o novo, como para
produzir o que já foi produzido,
ou até mesmo para impedir a produção;
marcas ora afirmativas ora repetitivas.
É importante ressaltar que todas
essas produções são
simultâneas e imanentes, caracterizando
lógicas distintas. Dessa maneira,
a lógica disjuntiva coexiste
com a lógica conectiva, que ao
contrário, atua para a conexão
das singularidades. A lógica
conectiva corresponde à produção
de produção, enquanto
a disjuntiva corresponde à produção
de reprodução e à
produção de antiprodução.
Retornando à pulsão e
ao exercício de um pensar disjuntivo,
observamos que este conduz ao endurecimento
das formas de clinicar e ao encapsulamento
do afeto na incapacidade de liberar-se,
de vibrar, evitando que forças
irrompam no psiquismo e na experiência
psicanalítica. Sem dúvida,
a fala e a interpretação
apenas não conduzem à
construção de um novo
território existencial, tampouco
trazem saídas para todas as subjetividades.
Descarregar deve estar associado ao
falar, ao expressar o que é verbalizado,
a dar corpo e forma à dimensão
da força pulsional e ao afeto.
Vale lembrar que essa conjunção
traz consigo a exigência da alteridade
para a sustentação dessa
manifestação. A alteridade
possibilita conferir sentido ao que
é encenado. Expressão
e sentido emergem na rede de relações
com o outro, sendo nesse tear que a
força pulsional pode se exercitar
e se inscrever no campo dos objetos
e da representação:
O outro não figura, assim, apenas
como simples testemunha encarregada
de sancionar a demonstração
emocional da criança, faz mais:
confere um sentido, exercendo assim
uma ação decisiva sobre
o desenvolvimento qualitativo da vida
afetiva (Schneider, 1993, p. 47).
Sem dúvida o discurso freudiano
aposta na subjetividade marcada pela
alteridade. Contudo, no decurso de sua
atividade clínica, Sigmund Freud
foi questionando a importância
da palavra e seus efeitos curativos.
Deparando-se com as dificuldades colocadas
pelos fenômenos de repetição
e dos sonhos traumáticos, postula
o conceito de pulsão de morte.
Esse conceito corresponde a uma força
independente, que se localiza além
do princípio do prazer, e diz
respeito ao excesso e à intensidade
(Freud, 1920). Excesso autônomo
e que não se presta a ser representado.
Intensidade que vibra e reverbera, potencializando
marcas, percorrendo o psiquismo com
avidez, retardando a tendência
da pulsão a descarregar-se. Contra
a harmonia reinstalada pelo princípio
do prazer, e que liga esse excesso a
uma representação, defrontamo-nos
com a intensidade atrelada ao questionamento
do sujeito da representação
inconsciente, regido por esse princípio.
Esse raciocínio insere o conceito
de pulsão não no campo
do objeto e da representação,
no qual o princípio do prazer
teria domínio hegemônico,
mas no que está além,
fixando-o mais adiante desse princípio,
no excesso. Excesso aquém da
simbolização, do que vem
antes do que pode ser nomeado e representado.
Reino do econômico e do quantitativo,
das descargas e dos afetos que burlam
travessamente interpretações
e significações. Nesse
contexto, deparamo-nos com o indeterminismo
das forças pulsionais, que encontram
múltiplos e variados destinos.
Todo esse processo evidencia a dimensão
econômica como essencial ao psiquismo,
e privilegia o impacto de intensidades
que encaminham a subjetividade para
a inquietação e para a
invenção, exatamente para
tentar conter esse jorro de energia
que transborda no aparelho psíquico
(Birman, 2001).
Embora as idéias freudianas tratem
do excesso, este ainda encontra-se ligado
à pulsão de morte, e não
como impulso inerente à vida.
Para além do inconsciente freudiano,
defrontamo-nos com um inconsciente maquínico
proposto por Gilles Deleuze e Félix
Guattari, que não deve ser pensado
como mito ou linguagem, mas como uma
fábrica, uma usina, atando o
desejo a fluxos. Contrapondo-se a um
inconsciente reducionista povoado por
sujeitos, objetos, projeções,
introjeções, imagens e
faltas, emerge um inconsciente composto
por focos de non-sense, impulsionado
pela coexistência permanente das
diferenças, e gerido pela lógica
das intensidades. Inconsciente da produção,
inconsciente das máquinas de
desejo, de natureza processual, que
não se esgota na novela privada
dos genitores e sua descendência.
Infinitamente inventivo, esse inconsciente
está sempre disposto a potencializar,
a transformar, enfatizando o singular.
Composição pulsante que
resvala por variações
energéticas, fundada por uma
pulsão nômade; campo do
indizível, do invisível.
Inconsciente maquínico da subjetividade
molecular:
A subjetividade de que se trata aqui
não tem nada a ver com uma palavra
que habitava o mundo, ou com um formalismo
transcendental, um simbólico,
que o animaria para a eternidade. Nem
arquetípico, nem estrutural,
nem sistêmico, o inconsciente,
tal como eu o concebo, procede de uma
criação maquínica
(Guattari, 1988, p. 151).
Nessa perspectiva, podemos abordar a
clínica psicanalítica
como um dispositivo centrado na força
e na intensidade dessa pulsão
nômade, calcada no indeterminismo
dos afetos e das descargas. Mesmo que
as forças psíquicas trabalhem
em algum momento para a eliminação
ou o abrandamento da tensão,
não nos esqueçamos que
a subjetividade advém desse jogo
pulsional e não consegue estancar
o excesso que escapa à representação.
A respeito dessa não-submissão
da pulsão à palavra, ao
simbólico, podemos afirmar que:
A formulação da pulsão
como excesso traumático não
representado assinala uma autonomia
da pulsão em relação
à representação,
que revela, para além do sujeito
da representação inconsciente,
um sujeito de intensidade pulsional
não mais garantido pela ordem
simbólica, uma vez que o circuito
pulsional não se inscreve no
simbólico de maneira imediata
(Neri, 2002, p. 21).
Esse excesso inominado, não-representado,
pressiona o sujeito em direção
ao movimento da vida, à criação,
sem compromissos e sem promessas. Experimentar
o intensivo, engendrar a potência
da vida, criar um novo território
existencial que incorpore essas intensidades,
deixar proliferar experiências
singulares, isso é o que esse
"resto" exige da subjetividade.
Cabe ressaltar que as multiplicidades,
que compõem não só
a subjetividade, mas toda a realidade,
circulam entre o campo do extensivo
e o campo do intensivo. A dimensão
extensiva cristaliza as multiplicidades
em arborescências, hierarquias
e representações, e coexiste
com a dimensão intensiva, do
inconsciente maquínico, que compreende
uma multiplicidade fluida, e abre-se
para a dimensão das intensidades,
promovendo o novo. Enquanto o extensivo
é povoado por sujeitos, idéias,
teorias e representações,
enfim, por formas, o intensivo é
habitado por forças, movimentos,
devires. Plano de organização
e plano de consistência, respectivamente,
esses dois planos possuem uma relação
permanente: o que está estratificado
encontra-se mergulhado em uma dimensão
inacabada; por outro lado, essa dimensão
informe incute uma diferença
intensiva a tudo o que já está
estabelecido. É nesse jogo do
intensivo e do extensivo que o sujeito
e seus encontros se localizam, que os
agenciamentos, como composições
do desejo, se realizam.
Preocupado com os fenômenos de
repetição, e produzindo
em cima desse impasse, Sigmund Freud
aborda de outra maneira a experiência
psicanalítica, não mais
enfatizando a interpretação
e sua atividade de tornar consciente
o inconsciente, mas a necessidade dessa
experiência suportar o impacto
assíduo das forças das
pulsões, e sobretudo sustentar
não só o que as palavras
não podem dizer, e no nosso entender,
o intensivo que germina no espaço
analítico. Fica claro, portanto,
que pensar a clínica psicanalítica
por essa vertente implica também
repensar o conceito de transferência,
que com certeza não é
somente um meio para se chegar às
representações recalcadas,
desvelando o sentido oculto dos sintomas
do cliente, mas vai além da reedição
de conflitos infantis atualizados na
relação com o analista.
A atualização existe,
sim, mas de outra forma. O estado de
potência pulsional inerente à
subjetividade, como virtualidade, atualiza-se
no encontro terapêutico. O que
existe potencialmente atualiza-se em
um devir outro, em um devir estranheza,
abrindo-se para o mundo, promovendo
acontecimentos.
Segundo Lévy (1996), o virtual
não se caracteriza pela ausência
de existência na realidade, mas
corresponde ao que existe em potência
e não em ato, a um aglomerado
de forças que acompanha situações.
Nesse sentido, o virtual não
se opõe ao real, mas ao atual,
que é a resposta a essa potência,
a essa força. Contudo, o virtual
nunca está presente, desprende-se
dos acontecimentos apenas no instante
em que se realiza, em que "acontece".
Produtor de efeitos, o virtual inventa
espaços e tempos.
Todos nós possuímos nossas
problemáticas, nossas tensões
e nossas forças, que são
inerentes à nossa existência.
Tornar o virtual atual é exatamente
configurar-se de uma nova maneira, transformar
territórios e modos de estar
no mundo, produzir devires, passagens
geridas por relações de
exterioridade, que por sua vez nutrem
retroativamente as virtualidades. A
relação entre o atual
e o virtual é incessante: por
um lado o atual remete ao virtual, uma
vez que a ele responde, que o atualiza,
que possibilita seu intercâmbio
com outros termos; por outro lado, o
atual possui seu próprio virtual
em relação estreita com
o que foi atualizado, com o que foi
produzido pelo virtual. Atual e virtual
remetem constantemente um ao outro,
coexistindo no plano de imanência.
Atualizar é inventar uma saída
onde não havia, desatar o nó
problemático que naquela circunstância
a estrangulava. A virtualização,
por sua vez, realiza a atividade contrária
à atualização,
movimentando-se do atual ao virtual,
potencializando forças, em um
percurso irreversível de problematização,
a partir da solução dada,
em direção a um outro
problema. A atualização
parte do virtual, produzindo singularidades,
parindo o atual, como resultado dos
deslocamentos das forças virtuais.
Nesse raciocínio, o acontecimento,
guiado pelo desejo que não possui
falta nenhuma, mas é pleno de
si, atualiza o virtual e dá consistência
ao que ocorre no molecular, no invisível.
Como convocação para a
criação via atualização
das linhas de virtualidade, o acontecimento
situa-se "entre" as relações,
no "meio" das conjunções
nômades, permitindo a expressão
das singularidades. "Acontecer"
implica em desterritorializar, em abandonar
temporariamente a dimensão extensiva
da nossa subjetividade, renunciando
ao nosso "eu" para tornar-se
devir, experimentando dessa maneira
a processualidade da vida. Vale lembrar
que o acontecimento é sempre
imprevisível, produzido nos encontros,
e faz as subjetividades tornarem-se
diferentes.
O intensivo, em cujo âmago as
linhas de virtualidade se atualizam,
sustenta a experiência analítica,
colocando os fluxos da força
pulsional em movimento, levando a potência
ao ato, deixando existir o que já
estava ali. Virtualidade que se expressa
na multiplicidade e não se reduz
a um individual nem a um universal,
mas está relacionada a singularidades.
Singularidades fluidas que só
se encontram por acaso, sem que nenhuma
causa efetue esses encontros. Acreditamos
que a transferência é mediadora
da possibilidade de experimentar, de
dar corpo a essa intensidade pulsional,
para inventar novos caminhos para o
afeto, onde outrora só havia
angústia. O analista deve ter
sensibilidade e delicadeza para confirmar
e favorecer esse aquém e além-dele
que passa por meio dele, afirmando sua
disponibilidade mediante a acolhida
desse jogo pulsional e a experimentação
da densidade transferencial a que o
cliente o convoca (Cavalcanti, 2001;
Reis, 2002).
Assim, a transferência é
a força que realiza deslocamentos
e metamorfoses, que movimenta o circuito
pulsional, estabelecendo conexões
invisíveis e potentes, que têm
efeitos na subjetividade. Esse dispositivo
clínico, compreendido como força
pulsional, ultrapassa o poder simbólico
e centra-se na tessitura dos excessos
pulsionais, das intensidades, amparada
pelo plano do intensivo. Tessitura produzida
a quatro mãos, ou a quantas sejam
- pelo cliente e pelo analista. Essa
abordagem engendra uma linha de fuga
ao determinismo da associação
da energia pulsional à representação
no inconsciente, uma vez que é
impossível prever os acontecimentos
psíquicos e seus destinos.
O pensamento freudiano que enfatiza
o excesso inominado, não representado,
reino do afeto, funciona como um intercessor,
com a noção de inconsciente
maquínico apresentada anteriormente.
A partir da ênfase no quantitativo,
podemos insistir no inconsciente como
portador de uma fluidez intensiva, complexidade
indeterminada a ser experimentada. Nesse
sentido, o inconsciente é visto
como algo que funciona ativa e positivamente,
por fluxos e quantidades incontroláveis,
jogando com o acaso criador, favorecendo
mutações, conexões
e agenciamentos. Potência do indizível
e do invisível, que é
um espaço social e político
a ser conquistado, calcado na produção
desejante coletiva: "o inconsciente
não é um teatro, mas uma
fábrica, uma máquina de
produzir; o inconsciente não
delira sobre papai-mamãe, ele
delira sobre as raças, as tribos,
os continentes, a história e
a geografia, sempre um campo social"
(Deleuze, 1992, p. 180). Inconsciente
intensivo que não se curva nem
ao mito e tampouco à clausura
individual-familiar, mas que é
pura afirmação maquínica
da vida.
Orlandi (1995) salienta que os textos
deleuzianos passam por temas psicanalíticos,
trazendo-os para uma nova trama conceitual
ao deslocar a pulsão radicalmente
para além da representação,
para o âmbito da produção
desejante, resgatando o processo primário
como o modo por excelência do
funcionamento da realidade. Dentro de
um raciocínio que atesta a primazia
da positividade, reafirmamos que o desejo
deve ser abordado em sua dimensão
processual, maquínica, que sustenta
tanto a subjetividade quanto toda uma
gama de afetamentos que assolam essa
subjetividade. Para além do princípio
do prazer, deparamo-nos com o processo
contínuo do desejo positivo,
com estados inéditos e estranhos,
carregados de intensidades.
Trabalhar com famílias implica
comportar todas essas forças
em busca da singularidade inerente a
cada sintoma no território familiar.
Território em que inconscientes
maquínicos se entrecruzam transversalmente
e imanentemente. O sintoma, pensado
a partir da leitura freudiana dos afetos,
exposta acima, enuncia o subversivo,
o que escapa, correspondendo também
a um excesso disruptivo que transborda
no psiquismo, instalando-se no coletivo.
Todavia, na maioria das vezes, antes
de ser inventividade, possibilidade,
possui um uso defensivo. O sintoma familiar
usualmente envolve grande sofrimento
psíquico por parte de todos os
membros do grupo. Esse sofrimento é
assíduo, sobretudo porque no
espaço contemporâneo é
nessa rede social que a grande parte
dos sujeitos garante alguma convivência.
A potência da vida possui uma
dimensão criadora, intensa, heterogênea,
que estala nos encontros efetuando agenciamentos,
produzindo acontecimentos via afirmação
de singularidades. Todavia, no nosso
entender, essa potência encontra-se
encapsulada em um circuito defensivo
de repetição quando a
família produz um sintoma. Nesse
sentido, a vibração intensiva
que se localiza no sintoma e subverte
a ordem familiar - a composição
dos papéis e funções
dos membros da família, a distribuição
da sua rotina - cristaliza-se, estratifica-se,
submete-se ao extensivo, empobrecendo
o território familiar, que se
torna enfraquecido pela ânsia
da mesmice e do igual, e indisponível
para suportar o movimento e as diferenças.
Ao invés dessa vibração
atuar como uma diferença que
remete a outra diferença, ela
é usada dessa maneira como defesa
contra a mutação própria
da vida.
Abordar esse uso defensivo nos conduz
ao trabalho de Rolnik (1995). Investigando
como se dá a construção
dos sintomas nas subjetividades, a autora
pontua que aqueles funcionam por meio
de uma persistência na referência
identitária. Essa perseverança
atua como um sedativo contra o mal-estar
vivido no movimento existencial de estar,
podendo vir a ser outra composição
mediante um afetamento. Aqui o sintoma
não emerge para a manutenção
do equilíbrio, como na leitura
sistêmica, ou como uma regressão
a estados primitivos, como para a psicanálise
familiar, mas aflora na recusa de se
aventurar na processualidade inerente
à vida. Sem perceber que o diferente
já existe, eclode o sintoma,
que corresponde também a uma
estagnação, a uma perda
da expressividade das subjetividades,
que negam veementemente a possibilidade
de arriscar, de habitar novos territórios.
Sustentado pelo pavor ao inominável,
o sintoma na família pode ser
entendido como resultado desse embate,
operando por insistência no conhecido,
por culto à referência
identitária almejada e prometida.
No centro dessa tensão, não
encontrando canal de existencialização,
o estranho atemoriza e eclode na família,
provocando uma contra-reação
na forma de um desajuste que ela insiste
em extinguir, a despeito de utilizá-lo
como proteção contra uma
outra via de existencialização.
O sintoma é assim uma expressão
do impedimento da motilidade da vida
quando, a partir de uma ruptura de sentido,
a família não consegue
criar um modo para se expressar e atualizar
os afetos que a perturbam em determinado
momento. Fluxo encapsulado, represado
e alimentado pelo pesar e pela angústia.
Nessa postura mórbida de evitação
e proteção, o grupo cria
superfícies invisíveis
de interações, tão
repetitivas e sem criatividade que até
mesmo as relações entre
as subjetividades tornam-se comprometidas.
Instala-se um buraco que absorve vorazmente
as possibilidades, impedindo a atualização
de virtualidades, a expressão
da potência do grupo e enrijecendo
a atmosfera como resistência.
Com certeza, a vida conduz o núcleo
familiar a rupturas de sentido, a desterritorializações,
que em algum momento o fragilizam. Destituída
de seu poder-potência, a família
insiste em trazer à tona o "como
era", em um ensaio vão de
conter o tempo, a história, os
afetamentos, as interfaces maquínicas,
a exterioridade das forças que
nela atuam. Entretanto, fracassa nessa
tentativa, pois já não
é mais possível existir
com as antigas referências identitárias.
Novos fluxos percorreram-na, atravessaram-na,
mas foram contidos. Presos e imobilizados,
eles encontram a via de intensificação
do sintoma. Já não dá
mais para ser o que era. Também
é muito arriscado lançar-se
na aventura da experimentação,
ousar vir a ser.
Para ocorrer a criação
de um novo território existencial
é necessário haver uma
desterritorialização do
escudo-sintoma, uma premência
de expansão da vida. Quando a
família cria um arranjo absolutamente
novo atinge um princípio de individuação
imanente e autônomo a partir de
si: autopoiese. A força é
efetuada e um plano de consistência,
de composição, também
é criado, juntamente com a invenção
de um novo território para que
essa força se efetue. Conforme
Guattari (1993), trata-se de - a partir
de uma desterritorialização
levada até o limite do suportável
- engendrar territórios existenciais
que se constituam por componentes heterogêneos
e mutantes. Essa desterritorialização
possibilita ao território existencial
livrar-se do sintoma, que como repetição,
caracteriza na verdade a negação
da heterogeneidade desse território,
a limitação de suas dimensões
crescentes a um número reduzido,
previsível e conhecido de conexões.
Com esse desvencilhamento, precursor
do novo, o grupo liberta-se de agenciamentos
redundantes e arraigados, que passam
a atuar para a cristalização
do ser, para a destruição
das singularidades, para a perda da
diversidade, para a interrupção
de linhas processuais da subjetividade.
Encarar essa processualidade certamente
exige disponibilidades do terapeuta.
Quem decide mexer com clínica
não pode perder a capacidade
de produzir territórios existenciais,
a capacidade de fazer a vida respirar,
de gerar atmosferas. A atmosfera da
vida é a invenção
de maneiras da vida passar, e de maneiras
de ser passando. Não devemos
solapar o território existencial
da família, mas nos associarmos
a ele, para juntos vivermos certa variação
e alguma novidade. Devir algo que não
sabemos, não se tornar algo,
mas localizar-se na passagem para algo.
Ter, dessa maneira, abertura para a
composição de novas realizações
que possibilitem a atualização
das linhas de virtualidades e a intensificação
da multiplicação dos processos
de invenção, optando por
encontros que enriqueçam os modos
de subjetivação, as maneiras
de existir, de estar no mundo, de fabricar
o mundo, reinventando dispositivos de
produção de subjetividades
em todos os domínios da vida
humana, propiciando a emergência
de máquinas existenciais, engendradas
na invenção ontológica,
cujos movimentos incentivem relações
de transversalidade.